'É bom amar Caetano e Roberto Carlos', diz escritor argentino Alan Pauls, que lança 'A metade fantasma'

Novo livro do autor de 'O passado' usa relacionamento à distância para falar de solidão, paranoia e perigos da tecnologia

Porto Velho, RO - O homem que surge da cintura para cima no celular é branco, tem cabelo grisalho rente nas laterais e arrepiado no topo, usa óculos de armação transparente, veste blusão preto e seu rosto quadrado e imberbe expressa algo entre tédio e incômodo. Ao fundo há uma parede branca com um quadrinho e duas prateleiras, a de cima com um enfeite de castigo, a de baixo com um modem. Vê-se uma poltrona, um topo de cadeira, a porta entreaberta.

Pergunto se Alan Pauls está no escritório. Ele sorri. “Bancando o Savoy?”, diz o escritor argentino, citando o protagonista de seu novo livro, “A metade fantasma”, lançado esta quarta no Brasil pela Companhia das Letras.

Savoy é um cinquentão que vive de renda em Buenos Aires e adora visitar residências alheias com o pretexto de alugá-las e, após descobrir os mercados virtuais, para buscar tralhas que adquire, em incursões que rendem longos, elaborados e cômicos parágrafos. A mania é turbinada quando a jovem Carla cruza seu caminho e ressurge no Skype, cada vez em uma cidade e ambiente diferentes, instigando a imaginação do analógico.

Um relacionamento amoroso já era o tema do romance que o consagrou, “O passado” (2003), levado ao cinema por Hector Babenco e reeditado agora pela Companhia. Também estava presente na trilogia memorialista “História do choro” (2007), “História do cabelo” (2010) e “História do dinheiro” (2013).

Em comum a outros livros do autor, "A metade fantasma" tem uma prosa com memória fotográfica, atenta a todos os detalhes, capaz de abrir infinitas abas a partir de qualquer assunto e que leva o leitor praticamente a um transe. "Porque era isso que acontecia com as explicações", reflete Savoy. "Dava para saber por onde começar, nunca onde parar."

— O livro gira em torno da distância nas relações pessoais, da distância na experiência amorosa. — diz Pauls, 62 anos, de seu apartamento em Berlim.

Filho de alemão, ele vive na Alemanha desde 2019 com a mulher, a diretora de teatro Lola Arias, e o filho Remo, de 7anos. Tendo os compatriotas Ricardo Piglia como mentor e Manuel Puig como inspiração, trabalhou como jornalista e hoje atua também como professor e roteirista.

A seguir, trechos da conversa em que Pauls aborda falsas promessas da tecnologia, dificuldades destes anos pandêmicos e a necessidade de se ficar em paz com “tudo que nos formou”, o que para ele inclui amar em igual medida Caetano Veloso e Roberto Carlos.

O protagonista do livro descobre algo que se tornou rotina de todos com a pandemia: o contato à distância, por telas. Viramos um pouco Savoy?

Terminei o livro 15 dias antes que se decretasse o lockdown aqui em Berlim. Ou seja, enquanto escrevia jamais me ocorreu que viria algo como a Covid, que isolou a todos. Mas o livro gira em torno do problema da distância nas relações pessoais, da distância na experiência amorosa. É um problema que se tornou mais crítico com a pandemia, mas já existia antes.

E como vê esse problema?

A tecnologia sempre foi vendida como um upgrade nas nossas vidas. Mas aos poucos deixou de ser opção para virar condenação, obrigação.

E Savoy, a princípio, não sente esta obrigação.

Pela idade, por falta de necessidade. Até que a necessidade surge. Queria mostrar isso: como analfabetos tecnológicos usam a tecnologia. Não são simplesmente pessoas atrapalhadas. Tanto que, se precisam mesmo, conseguem usar. Um millenial não se faria as perguntas que Savoy se faz. Me interessava que o personagem fosse todo suspeita.

E você suspeita da tecnologia?

Uso apenas o que necessito. Não sou inimigo da internet, mas sei que poderia perfeitamente me perder. Só tenho Instagram. É preciso deixar certas portas fechadas.

Alguns relacionaram “A metade fantasma” com “O passado”, que também descreve um relacionamento amoroso. O que acha da comparação?

Os dois livros falam de experiências amorosas extremas, radicais, que, aliás, me parece característico de toda experiência amorosa que seja verdadeira. Mas “O passado” era um livro sobre o que sobra de um relacionamento, sobre as ruínas, o pós-amor. Em “A metade fantasma”, o que exploro é o enamoramento, o Big Bang amoroso. E as questões do relacionamento à distância. Se um se vai e o outro fica, que tipo de imaginação é ativada, que tipo de elaboração mental? Como um reinventa o outro? Há uma falsificação.

Savoy pode não ser uma fonte confiável sobre Carla, mas tem opiniões interessantes sobre cultura. Quando ele critica o filme “Asas do desejo”, por exemplo...

É o porta-voz da minha geração (risos). Para fãs de Wim Wenders, como eu era, “Asas do desejo” é uma concessão a uma visão sentimental do mundo. Me interessava que o personagem tivesse esse lado de groupie traído, impiedoso com seu ídolo, com alguém que ama.

Falar de Wim Wenders é uma brecha para falar de Berlim, cidade que surge no livro e onde você vive desde 2019.

Minha mulher, Lola, trabalha aqui, meu filho está adaptado. Então faz sentido ficar mais tempo. Ainda mais diante das notícias horríveis que chegam da Argentina. Não falo alemão como gostaria, mas desenvolvi uma relação com a cidade. Se tivesse um inverno menos sádico... É uma decisão para quando o mundo voltar ao normal. Se voltar.

Como a pandemia te afetou?

Me tornei mais consumista. Passei a comprar mais livros. E todo tipo de coisa. Um efeito do confinamento é saber perfeitamente todas as porcarias inúteis e ridículas que você pode comprar para cada parte da casa. Mas penso que essas porcarias são parte de mim. É algo que me parece muito interessante, reconhecer os elementos horríveis que nos compõem.Tento mostrar isso no livro: Savoy menospreza hits dos anos 1980, mas eles correm em suas veias. No meu caso, o exemplo é Roberto Carlos.

Pode falar mais sobre isso?

Roberto Carlos foi um cantor muito importante para Buenos Aires quando eu era menino. Ia a Buenos Aires e cantava em espanhol. Seu espanhol com sotaque brasileiro era para mim o cume da genialidade. Mais tarde, com uns 20 anos, quando comecei a gostar de Caetano Veloso, achava que não podia gostar de Roberto Carlos.

Caetano discorda!

Sim, é bom amar Caetano e Roberto Carlos. Mas veja, isso em Buenos Aires não existia. Não se imaginava que um artista superculto admirasse um ídolo super popular. Ou você era de um, ou era de outro. E, assim como eu gostava muito de Roberto Carlos, gostava de cantores italianos muito populares, muito comerciais, que iam a Buenos Aires também cantar em castelhano.

Artistas como Nicola di Bari, que hoje não escutaria nem morto. No entanto, sou formado por eles, por essa música. Se hoje, que tenho 62 anos, alguma dessas canções me surpreende, é muito provável que essa música me toque diretamente em uma espécie de fibra sentimental. Onde sou completamente frágil, certo? Onde não tenho nenhuma defesa.

E como você reage?

Já estou reconciliado com isso. Já considero como parte de mim. Não resisto, não me rebelo, não brigo comigo. Aceito tudo o que há em mim, bom ou mau, nobre ou vulgar.

Fonte: O Globo

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